E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?
O tempo passa, e pensando ser imune ao arrependimento, descobri que não o era. Não que me arrependa das coisas que fiz, muito longe disso, mas das coisas que não fiz, isso sim.
Não abandonei minha antiga filosofia, e acreditando ainda naquela música, descubro que o importante não é mais desejar ter feito as escolhas certas, mas sim desejar ser outra pessoa. Assim quando me imagino no passado, vejo a alteridade de mim mesmo, me vejo outro, gostaria de ser igualmente outro no presente.
Mas, para o passado não há remédio, resta o futuro que é uma esparramação do presente. Meu medo é justamente que o passado nos oprima de tal maneira que não se consiga fugir dele de forma a buscar o futuro diferente, restando apenas o desejo de ter sido outro no passado.
E daí que sempre oscilo em duas crenças contraditórias: que nós somos as nossas escolhas, e ao mesmo tempo nós não as escolhemos. Como se os sonhos escolhessem os homens, e não os homens aos sonhos. Se escolhemos assim, é que assim somos, assim nascemos.
Eu que acreditava no caráter certeiro, posto que irremediável, das minhas escolhas passadas, acabo acreditando que todos os meus presentes, passados e futuros, foram como que definidos pelas deusas do destino: Fiandeira, Distributriz e Inflexível.
E fico imaginando se Distributriz tivesse puxado os fios em outros momentos que não estes quando os puxou e me fez assim como sou. Se Distributriz me tivesse reservado outros destinos, quem eu seria? E se Inflexível tivesse decidido cortar o fio justo quando nasci, como deveria ter sido quando do meu nascimento, se não fosse a intervenção médica me desenrolar e cortar o outro fio, o umbilical.
Seriam minhas escolhas irremediáveis? Estaria eu condenado a ser eu mesmo? Penso que gostaria ao menos de ser mais do que eu mesmo.
Eu gosto é do estrago.

