Estava eu atravessando o viaduto da João Pessoa, quase imobilizado por estar carregando mochila, jaqueta jeans e um MP3 player na mão, quando sou abordado por um rapaz. Paro, inclino a cabeça para ouvi-lo. Quando este chega bem próximo, ouço;
-Isso é um assalto!
-Quê?
-Só o dinheiro! Só o dinheiro! Só o dinheiro!
Creio que fiquei cerca de um minuto parado, olhando, sem entender o que estava acontecendo. Sou meio devagar, e perdi algum tempo percebendo o que ele tinha nas mãos (nada!) e o número de passantes pela volta.
Ora, eu posso não ser o mais rápido e corajoso do mundo (embora até tenha um pouco de sorte), porém não cederia tão facilmente. O rapaz estava contando que eu cairia atemorizado só com a ameaça. Eu posso ser um merda perto dos caras do lugar de onde cresci, mas eu ainda sou mais tranqüilo e sangue-frio que a maioria desses seqüelados da Capital.
Eu simplesmente disse: "Sai fora, meu!" e dei um passo para trás, e dois para a direita. Ele desistiu facilmente, virando-se de costas e dizendo, enquanto balançava a cabeça negativamente:
"Não tem, não tem! Fazer o quê?"
Tive um amigo que teve o relógio roubado, sendo que o ladrão ainda pediu desculpas: "Foi mal! É que to precisando!". Ainda ouvi uma história de terceiros, que o ladrão após assaltar uma rapariga e ter se distanciado uns 10 passos, retorna e pergunta à moça:
-Tem fichinha de ônibus pra voltar pra casa?
-Ah! Sim! Tenho!
-Então tá bom, tchau!
Uma amiga teve um caso ainda mais interessante. Voltava do mercado com uma sacola de compras quando foi abordada pelo assaltante. Não tendo dinheiro ela oferece fichas de ônibus, ao que ele aceita. Ela começa a procurar na sua mochila, levando certo tempo para encontrar. O rapaz olha para a sacola do supermercado:
-Tem comida aí?
-Só leite.
-Ah, bom. Então deixa.
Mais alguns minutos se passam enquanto ela procura. Ele pede o celular, mas ela não o carrega, e eles discutem se é necessário que ele revista a mochila dela. Mais algum tempo se passa enquanto ela procura fichas para o assaltante, até que ele diz:
-Olha, quando tu passar por essas ruas aqui tu te cuida melhor, viu?
Nada contra assaltantes, mas o mínimo que eles podiam fazer é livrar-nos do fardo de ter que amenizar a culpa que eles sentem por estarem nos assaltando. Se tu vais assaltar alguém, não peça desculpas, não finja que se importa, não aja como inocente. A sua culpa é problema seu, não jogue esse fardo para nós. Não quero saber se tu passas fome, se teu pai te bate ou o diabo. Não enquanto estou sendo assaltado, pelo menos. Nem todos os assaltantes são pobres, nem todos os pobres são assaltantes. Um crime é sempre um crime, caso contrário não seria um crime. Compreender algo tão simples é algo que escapa, não somente aos assaltantes, mas a toda a nossa sociedade que insiste em achar natural aquilo que todo dia nos consome: a irresponsabilidade. Não somos responsáveis pela miséria alheia, e os assaltantes também não se acham responsáveis por estarem nos assaltando.
Já não basta ouvirmos políticos legitimando seus salários, empresários justificando a sonegação, temos ainda que ouvir as desculpas e os conselhos de assaltantes de rua? Eu estou farto dessa sociedade de inocentes, de pobres coitados que são obrigados a cometerem crimes pelas condições impostas pelo coletivo.
É possível discutir se piratear “Tropa de Elite” é um crime ou não, porém até o presente momento de nossas leis, é. No entanto, não é possível discutir se o direito sobre a vida e a morte pode tornar-se uma prerrogativa de qualquer policial da “Tropa de Elite”, assim como não se pode justificar a lei do medo e da violência dos assaltantes como um meio de sobrevivência. A crise moral da nossa sociedade não é a falta de alguma coisa, é o excesso de razões para responsabilizar os outros pelos problemas coletivos.
“Essa miséria que nos sustenta”, vai muito além da pobreza material. A miséria também é da teoria, da ideologia que permite que consigamos conversar todos os dias, do espírito que nos move dentro da nossa sociedade.
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12/10/2007
16/07/2007
Causos da Cidade Baixa.
Da Tauromaquia, de Goya
Estava eu andando pela República quando um rapaz, vestido como um típico morador de rua, vem em minha direção dizendo: "Eu vou te matá, filhodaputa. Eu vou te matá!"
Ele não estava se referindo a mim, e logo descobri a quem era. Ele pega uma pedrinha inofensiva no chão, e joga para trás (na direção oposta a que eu estava) para atingir um grupo de jovens de classe média. Não sei o que houve entre eles, mas o rapaz de rua estava furioso.
Não se satisfazendo com a pedrinha, ele agarra uma enorme pedra, dessas idiotas e lisas que decoram calçadas, atira com toda a força no chão para ter em mãos pedregulhos perfeitos para atirar em alguém. Não perde tempo e atira de novo contra os jovens de classe média. E eu assistindo.
Ele corre logo após atirar as pedras, e eu continuo andando até chegar mais próximo do grupo de jovens, o objeto de ódio do rapaz de rua, que indignados ao perceberem as pedras vindas do alto começam a correr, enquanto um diz: "Vamos dá um pau nele!".
Eles saem enlouquecidamente. Porém, um deles dá um pique mas logo desiste da corrida, e olha para os outros desolado. Estes não desistem, e correm atrás do rapaz de rua aos gritos de "volta aqui!".
Ele não estava se referindo a mim, e logo descobri a quem era. Ele pega uma pedrinha inofensiva no chão, e joga para trás (na direção oposta a que eu estava) para atingir um grupo de jovens de classe média. Não sei o que houve entre eles, mas o rapaz de rua estava furioso.
Não se satisfazendo com a pedrinha, ele agarra uma enorme pedra, dessas idiotas e lisas que decoram calçadas, atira com toda a força no chão para ter em mãos pedregulhos perfeitos para atirar em alguém. Não perde tempo e atira de novo contra os jovens de classe média. E eu assistindo.
Ele corre logo após atirar as pedras, e eu continuo andando até chegar mais próximo do grupo de jovens, o objeto de ódio do rapaz de rua, que indignados ao perceberem as pedras vindas do alto começam a correr, enquanto um diz: "Vamos dá um pau nele!".
Eles saem enlouquecidamente. Porém, um deles dá um pique mas logo desiste da corrida, e olha para os outros desolado. Estes não desistem, e correm atrás do rapaz de rua aos gritos de "volta aqui!".
***
Jovens de classe média e moradores de rua possuem muito em comum. Eles costumam freqüentar a Lima e Silva, adoram comer o Xis do Speed, e procuram desesperadamente sentir prazer, através de consumo, drogas e sexo. E para completar, a sedução da violência também lhes causa profunda impressão, e eles normalmente se engalfinham na sua rede. Admito que apenas uma noite abandonado nas ruas de Porto Alegre é o suficiente para abalar uma pessoa de forma irreversível, enquanto que o mau dos jovens de classe média costuma ser apenas a falta de um campo com mato alto para capinar.
Porém, vou ser sincero. Como não sou moralista posso declarar que eu não gosto de jovens de classe média, e de moradores de rua também não. Por mim o mundo seria muito melhor sem esses dois tipos sociais. Certamente somente uma pessoa como eu para traçar um paralelo entre esses dois grupos, mas eles realmente possuem alguma coisa em comum.
De todos esses que participaram da briga que contei acima, somente me identifiquei com um: o hesitante. Aquele que olha para os amigos enfurecidos e vê o quanto desprovido de significado é aquela cena toda, percebendo que a violência é sagrada demais para ser profanada por motivos tão banais. Eu sempre fui assim, jamais vi sentido em tudo aquilo que tinha valor para os jovens da minha idade.
Porém eu compreendo a fraqueza de uns, e o destino maldito de outros. O som e a fúria causam a destruição da ânsia pelo significado do sentido. Se Deus existir deve ser algo mais ou menos assim...
Jovens de classe média e moradores de rua possuem muito em comum. Eles costumam freqüentar a Lima e Silva, adoram comer o Xis do Speed, e procuram desesperadamente sentir prazer, através de consumo, drogas e sexo. E para completar, a sedução da violência também lhes causa profunda impressão, e eles normalmente se engalfinham na sua rede. Admito que apenas uma noite abandonado nas ruas de Porto Alegre é o suficiente para abalar uma pessoa de forma irreversível, enquanto que o mau dos jovens de classe média costuma ser apenas a falta de um campo com mato alto para capinar.
Porém, vou ser sincero. Como não sou moralista posso declarar que eu não gosto de jovens de classe média, e de moradores de rua também não. Por mim o mundo seria muito melhor sem esses dois tipos sociais. Certamente somente uma pessoa como eu para traçar um paralelo entre esses dois grupos, mas eles realmente possuem alguma coisa em comum.
De todos esses que participaram da briga que contei acima, somente me identifiquei com um: o hesitante. Aquele que olha para os amigos enfurecidos e vê o quanto desprovido de significado é aquela cena toda, percebendo que a violência é sagrada demais para ser profanada por motivos tão banais. Eu sempre fui assim, jamais vi sentido em tudo aquilo que tinha valor para os jovens da minha idade.
Porém eu compreendo a fraqueza de uns, e o destino maldito de outros. O som e a fúria causam a destruição da ânsia pelo significado do sentido. Se Deus existir deve ser algo mais ou menos assim...
23/04/2007
Confissões...
-Padre, eu pequei...
-Pois fale, meu filho.
-Mas o meu pecado é muito grave, Padre...
-Nenhum pecado é imperdoável diante de Jesus Cristo.
-A coisa é muito feia, Padre...
-Tu tá me assustanto, guri.
-Isso tá me consumindo por dentro... Não posso mais guardar dentro de mim...
-Desembucha, porra!
-Er-hum... É que eu não sou de esquerda, Padre.
-Ahh!... hum... Eu entento, eu entendo. É complicado. Todavia, eu já desconfiava.
-Tem mais, Padre...
-Mais?
-Sim... É que eu não votei no Lula...
-Hummm! É complicado. Mas tu contaste isso para alguém do Campus do Vale?
-Sim, Padre... sabe como é... eu não seguro a minha maldita língua.
-Eu entendo. Eu entendo. Mas, fique tranquilo, meu filho. Deus é grande, e afinal de contas, a reforma política taí, vai que tu tens mais uma chance.
-Não, Padre. O senhor não compreende... Mas é que eu também não acredito em Deus...
-Hummm! Isso é muito sério, meu filho. Jamais diga uma coisa dessas, Deus ama você.
-Ama nada, Ele não passa de um Velho Sacana...
-Mas, se tu não acreditas, porque o chamas de Velho Sacana.
-Não acredito, mas O respeito. Afinal, um cara que nunca aparece e, mesmo assim, tem uma pá de gente que paga o maior pau pra Ele... Deve ser um Cara FODA...
-Não diga uma coisa dessas, meu filho. É pecado. Porém, uma coisa me intriga, se não acreditas, porque vem aqui?
-É mais barato que o psicólogo...
-Hummm!
-Foda-se... e quanto ao Lula, Padre?
-Hummm! Diante desse pecado só há uma penitência adequada.
-Por favor, Padre. Eu aceito até ajoelhar no milho para que eu possa me redimir diante da sociedade.
-Nada disso. Não há outra alternativa, tu deves te filiar ao PSOL!
-Não, Padre. Por favor, não. Diga que a auto-mutilação é o suficiente, por favor, Padre, diga.
-Nope, filho... você precisa de cura interior...
-Pois fale, meu filho.
-Mas o meu pecado é muito grave, Padre...
-Nenhum pecado é imperdoável diante de Jesus Cristo.
-A coisa é muito feia, Padre...
-Tu tá me assustanto, guri.
-Isso tá me consumindo por dentro... Não posso mais guardar dentro de mim...
-Desembucha, porra!
-Er-hum... É que eu não sou de esquerda, Padre.
-Ahh!... hum... Eu entento, eu entendo. É complicado. Todavia, eu já desconfiava.
-Tem mais, Padre...
-Mais?
-Sim... É que eu não votei no Lula...
-Hummm! É complicado. Mas tu contaste isso para alguém do Campus do Vale?
-Sim, Padre... sabe como é... eu não seguro a minha maldita língua.
-Eu entendo. Eu entendo. Mas, fique tranquilo, meu filho. Deus é grande, e afinal de contas, a reforma política taí, vai que tu tens mais uma chance.
-Não, Padre. O senhor não compreende... Mas é que eu também não acredito em Deus...
-Hummm! Isso é muito sério, meu filho. Jamais diga uma coisa dessas, Deus ama você.
-Ama nada, Ele não passa de um Velho Sacana...
-Mas, se tu não acreditas, porque o chamas de Velho Sacana.
-Não acredito, mas O respeito. Afinal, um cara que nunca aparece e, mesmo assim, tem uma pá de gente que paga o maior pau pra Ele... Deve ser um Cara FODA...
-Não diga uma coisa dessas, meu filho. É pecado. Porém, uma coisa me intriga, se não acreditas, porque vem aqui?
-É mais barato que o psicólogo...
-Hummm!
-Foda-se... e quanto ao Lula, Padre?
-Hummm! Diante desse pecado só há uma penitência adequada.
-Por favor, Padre. Eu aceito até ajoelhar no milho para que eu possa me redimir diante da sociedade.
-Nada disso. Não há outra alternativa, tu deves te filiar ao PSOL!
-Não, Padre. Por favor, não. Diga que a auto-mutilação é o suficiente, por favor, Padre, diga.
-Nope, filho... você precisa de cura interior...
13/02/2006
eu sei q todo mundo vai discordar de mim...
Eu normalmente não assisto TV, embora até goste. Falta tempo mesmo. Porém existe um certo número limitados de programas que aparecem na minha frente quando ligo tão imprevisível aparelho (eles me perseguem). Um deles é aquele da MTV onde procura-se namorados (aquele da apresentadora com boca enorme e suculenta), e onde os jovens brasileiros circunscrevem a própria estupidez.
O que me leva ao estupor é que sempre quando pergunta-se a principal qualidade do pretendente a namorado, a resposta normalmente é: "ele é baladeiro!" É impossível não fazer cara de nojo diante disso. Primeiro lugar vem a minha natural aversão a expressão "balada" (que, por sinal, recorda-me o Antonio Banderas fazendo uma chacina). Céus, eu não possuo a principal qualidade dos jovens brasileiros, subestimo e desprezo totalmente a tal de "balada" (ainda bem que sou nerd e anti social).
Tem aqueles que ainda falam da tal de "dança", porém, convenhamos, o negócio ali é trocar cuspe. No entanto, dificilmente poderia-se usufruir de maneira satisfatória de uma mulher numa "balada". As principais utilidades femininas (além de lavar a roupa e cozinhar, é claro) é a conversação e o sexo. Eu não creio que existam grandes chances de fazer uma dessas coisas numa "balada". Não dá pra conversar com aquele barulho, com pessoas estranhas além do mais. E nem pra trepar com uma desconhecida que surge numa balada meia bebada e vestida de maneira estranha e sensual. Eu não me sentiria bem, ao menos.
Nem mesmo um beijo de língua e uns amassos num lugar barulhento, estranho e cheio de gente em volta podem superar uma ida ao motel com alguma garota que vc sabe o nome, consegue conversar e divertir-se, e ainda possui um mínimo de intimidade. Irão apunhalar-me de insano, nerd e grosseiro, mas é a minha sincera opinião. Talvez a mesma seja fruto da minha total incapacidade de "pegar algo que preste" numa "balada". Apenas não me contento como a maioria dos fracassados que "pegam qualquer coisa" apenas para não passar a noite em branco.
Eis aí a função social da "balada": inflar o Ego dos seus participantes. Qualquer mané consegue "agarrar" uma meia dúzia numa noite, fazendo com que ele consiga vangloriar-se com tal feito (no entanto, eles acabam ficando sozinhos no final da noite... se soubessem o quanto é bom possuir o corpo e a alma de uma mulher, fazendo ela derreter-se ao balança de uma simples lembrança). As garotas, por sua vez, mesmo que sejam do tipo totalmente invisível e transparente na vida real, numa "balada" tornam-se musas disputadas a tapa por um bando de bêbados na seca.
Eu ainda prefiro festinhas onde amigos encontram-se para beber, conversar, dançar, assistir algum show talvez. No entanto, o termo "balada" geralmente acaba designando a procura de alguém do sexo oposto para uma eventual troca de cuspe. Defendo a comunicação e o sexo contra a plastificação dos relacionamentos (as mentes e os corpos precisam relacionar-se, conhecer, sentir, estremecer).
Em busca da intimidade perdida...
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