01/09/2009

Sobre o desaparecimento de Belchior.

O próprio já disse:

"Esses casos de família e de dinheiro
eu nunca entendi bem"

"Fotografia 3x4"
Alucinação (1976).

21/06/2009

Retro-alimentação.

O que é uma merda é que, se formos sinceros mesmos, não temos controle nenhum da nossa mente. Os momentos de euforia e melancolia que nos abalam, por motivos relavantes ou não, são sempre incontroláveis.

É tudo uma manifestação psíquica temporária. Nada permanece, tudo se transforma. As lembranças que ficam são cuidadosamente digeridas pelo inconsciente, de forma que nada escapa da boca sempre aberta do tempo. Se na intimidade da sua mente você ama, odeia, sofre ou goza, é porque assim escolheu. Se você odeia algo, odeia a si mesmo. Se ama algo, ama a si mesmo. Tudo no mesmo espaço, mas não no mesmo tempo. O tempo destrói todas as coisas, menos a vontade de esquecer, e o esforço pra lembrar.

É como alimentação... o tempo destrói todas as comidas, menos a vontade de comer e o esforço pra cagar.

A única experiência psíquica pura é o vazio. Porque quando você pensa sobre algo do mundo da vida... é porque aquilo que você está pensando já morreu.

Eu já escrevi quase tudo isso antes aqui, eu sou uma pessoa muito repetitiva. E se meus últimos posts foram sobre citações de livros, é que cada vez me convenço mais que ler é mais importante que escrever, embora um não faça sentido sem o outro. Tenho lido muitas coisas interessantes...



(Arcimboldo, "O Cozinheiro", 1570)

18/05/2009

Pecado.

"No Secretum, Petrarca faz da acídia a característica principal de sua vida psíquica. Ele designa por este nome o efeito de uma incapacidade de querer, de uma indolência ou de uma preguiça que o impedem de prolongar sua vontade em verdadeira ação. A acídia seria o sentimento de tristeza próprio daquele que sabe muito bem o que tem que fazer, que conhece o obstáculo que o impede de cumpri-lo, mas que, no entanto, não faz nada de decisivo para sair dessa situação, e multiplica os desvios e as falsas razões pelas quais ele adia o momento da resolução autêntica. A acídia é esta tristeza da impotência diante de si próprio”, p. 4.


BESSE, Jean-Marc. Ver a terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. Trad. Vladimir Bartalini – São Paulo: Perspectiva, 2006.

18/04/2009

KOESTLER, Arthur. O Zero e o Infinito (Darkness at Noon). Globo: São Paulo, 1964.

Rubachov, sobre a História:

“Um matemático disse, uma vez, que a álgebra era a ciência dos preguiçosos: não se conhece o valor de x, mas opera-se com ele como se o conhecêssemos. No nosso caso, x representa as massas anônimas, o povo. A política significa operar com este x sem se preocupar com sua natureza real. Fazer História é reconhecer x pelo que representa na equação”.

Rubachov sobre o socialismo:

“A política pode ser relativamente limpa nos espaços em que a história toma fôlego; nas curvas críticas não há outra regra possível além da velha regra: o fim justifica os meios. Introduzimos o neomaquiavelismo neste país; os outros, as ditaduras contra-revolucionárias, nos imitaram canhestramente. Fomos neomaquiavélicos em nome da razão universal – essa foi a nossa grandeza; os outros, em nome do romantismo nacional, que é o seu anacronismo. Eis por que no fim seremos absolvidos pela História: mas eles, não...”

25/03/2009

Viver É Mais Barato do que Você Pensa (Prisão Dinheiro, 1 de 6)

"Sinto uma dor no coração cada vez que escuto um vestibulando dizer que adora biologia/filosofia/etc, mas que vai cursar direito/medicina/engenharia/etc, porque dá mais dinheiro. E eu penso: meu deus, tão moleque, morando com os pais, vivendo de mesada, ainda nem sabendo o preço da vida, mas já abrindo mão do que gosta - já com tanto medo! Como as pessoas suportam viver com tanto medo?

A maioria das pessoas que conheço vive tomada por um medo enorme da vida: medo de serem demitidas, medo de serem pobres, medo de não conseguirem se sustentar. Mas se sustentar é fácil. Dá pra se sustentar com qualquer empreguinho. Não dá pra comprar todas porcarias que você vê anunciando na TV, mas dá pra se sustentar, sim, e ser muito feliz. Do que essas pessoas têm medo então? De não conseguirem se sustentar ou de não conseguirem comprar roupas de grife, livros caros, engenhocas eletrônicas?"

Trecho do blog Liberal Libertário Libertino

vale também a série "Dicas de Economia Doméstica de um Ex-Rico".

23/01/2009

Beirut

O cara dessa banda é apenas alguns meses mais jovem que eu. Tudo que eu poderia criar de belo meio que perdeu sentido. Eu posso aturar a genialidade do século XIX, mas esse merda desse cara nasceu na mesma porra de ano que eu, e consegue criar algo tão, tão, tão belo...

Se eu fizesse parte dessa banda sentiria como se meu trabalho na terra estivesse pronto. Mas, ainda tenho tanto trabalho, e não posso fazer nada com música.

Eu invejo muito todos os músicos...

"i listen to bands that don’t even exist yet."

05/01/2009

Declaração dos Direitos Humanos.

1. Todo ser humano gerado na agonia entrópica do mundo, independente de sexo, credo ou cor, tem a liberdade de apodrecer.

2. Fica assegurado o direito de todo ser humano de ser um indivíduo, real ou fictício, e não apenas exemplares de conceitos da retórica política, como "povo", "proletariado" ou "classe-média".

3. Todo ser humano tem direito à meria - genética, social, virtual, real ou fictícia; sendo esta o requisito para definir uma criatura enquanto humana.

4. Todo ser humano tem direito a comunicar-se como quiser, ficando abolida toda e qualquer tentativa de legislar sobre a fala humana. Se a humanidade não dinamizar suficientemente as suas linguagens, ela será incapaz de comunicar-se não somente com os extraterrestres como também com as outras humanidades.

5. Fica assegurada a liberdade de ser estúpido e ignorante, posto que nada é mais nocivo à civilização do que a inteligência generalizada e amorfa. A inteligência se funda na estupidez, sendo esta a condição de possibilidade da primeira. No momento em que os seres humanos se tornarem incapazes de reconhecer a sua própria estupidez, a inteligência desaparecerá por completo do planeta.

6. Todo ser humano tem a liberdade de amar, mas jamais a obrigação.

7. Todo ser humano tem o direito de perceber, imaginar ou se iludir com a BELEZA, pois, sem ela, nada restaria a fazer no mundo.

20/12/2008

Contra-texto

Meu orientador - que é a pessoa mais perspicaz e inteligente que eu conheço - disse que meu TCC defendia argumentações que se contradiziam ao longo do texto, o que me fez pensar bastante.

Não sobre o conteúdo do texto em si, pois isso já não me importa, pelo menos agora que ele já foi aprovado e coisa e tal. Essa aparente contradição me mostrou o quanto cultivo carinhosamente esses antagonismos complementares e, inclusive, me recuso abrir mão deles. Neste espaço virtual postei textos absolutamente contraditórios, seja internamente, ou ainda que se contrapõem a outros textos. Mas, principalmente, textos que contradizem todos os meus desejos, expectativas, possibilidades, projeções, lastros, enfim...

Como um aspirante à intelectual fica o tempo criticando essa gente? Isso não significa que eu esteja sendo hipócrita, pelo contrário, o que escrevo é exatamente o que penso. Mas, penso coisas contraditórias (velho bom, duplipensar), entre outras aporias.

O texto em que falo sobre Livros, por exemplo, o imenso inventário das frustrações humanas. Ora essa, nada mais importante para mim do que os livros. É por eles que vivo, não vou disfarçar, me envergonhar, ou o que for. Sou uma traça, mas não me alimento do papel, mas do sentimento que brota quando leio. Simples assim. Vivo do jogo de espelhos da leitura: o que lemos é aquilo que alguém quis escrever, ou aquilo que eu mesmo quis ler num texto alheio?

Mas, embora traça, reconheço a arte maior: a música. É somente na música tocada ao vivo que podemos retornar ao Éden... Todos procuram o belo, gregos, antigregos, subgregos...

12/12/2008

Anthony Burgess - 1985 (em homenagem à implantação dos TCCs no Dep. de Hist da UFRGS)

"Intelectuais com ambições políticas tinham de ser suspeitos pois, numa sociedade livre, os intelectuais figuram entre os desprotegidos da fortuna. O que eles oferecem - como professores, conferencistas acadêmicos, escritores - não tem muita procura. Se ameaçarem suspender suas atividades ninguém se incomodorá muito. Recusar-se a publicar um volume de versos livres ou a ministrar uma aula de linguística estrutural não é a mesma coisa que interromper o fornecimento de energia elétrica ou paralisar os ônibus. Eles não dispõem dos poderes do patrão capitalista ou dos chefes dos sindicatos. Frustrados e insatisfeitos com os prazeres puramente intelectuais, tornam-se revolucionários. As revoluções são, quase sempre, obra de intelectuais descontentes, dotados de um certo dom para a oratória. Vão às barricadas em nome dos camponeses ou dos operários porque o lema: "Intelectuais do mundo, uni-vos!" não é lá muio inspirador".


"Ou construir uma imagem romântica do operário e endeusá-lo, o que significado privá-lo de suas características humanas, ou desprezá-lo - estas eram as duas únicas alternativas possíveis para um intelectual como Orwell. Ele tinha tudo para pertencer ao Ingsoc - lia o The New Statesman enquanto os operários liam o Blighty e o The Daily Mirror. Os operários não compravam seus livros. Também não compram os meus, mas eu não me queixo. Nem cometo o erro de supor que a vida da imaginação é de algum modo superior à vida do corpo. Tanto o trabalhador das docas quanto o novelista, ambos são parte de um organismo chamado sociedade e, pense o que quiser, a sociedade não pode prescindir deles".


"O proletariado não existe. O que existe são homens e mulheres, com os mais variados graus de conscientização social, religiosa e intelectual. Considerá-los apenas em termos marxistas é tão aviltante quanto seria olhar para eles do alto de uma carruagem de vice-rei. Não é nosso dever anular as diferenças de sangue, educação, maneira de falar e até mesmo cheiro que nos separam, contraindo um matrimônio de sacrifício, fora do nosso meio social, ou passando uma segunda-feira sob o cais de Wigan. Mas temos o dever de não permitir que abstrações como classe e raça possam ser transformadas em bandeiras de intolerância, do medo e do ódio. Temos o dever de, pelo menos, tentar lembrar que somos todos - ai de nós - mais ou menos iguais, isto é, horríveis".

05/11/2008

Yes We Can...

23/10/2008

Bebop

Laughing Bull spoke: "Swimming bird, do you know what your body is made from?"

I spoke: "I don't know. Probably some bird droppings that's rolling around somewhere."

Bull spoke: "Swimming bird, do you know what your soul is made from?"

I spoke: "I don't know. Probably some cotton dust that's rolling around somewhere."

Bull spoke: "That answer is wrong; yet right.Your body is connected with the universe; yet it is not. Your soul includes the entire universe; yet it does not. That is for me and for everyone. If you hate someone, you hate yourself. If you love someone, you love yourself."

I Spoke: "I don't feel anything towards anyone."

Bull spoke: "That is the greatest misfortune on this earth."

Cowboy Bebop - Parte 1 - Parte 2 - Parte 3

05/10/2008

Livros

Eu sempre fui um apaixonado por livros. E sempre acreditei que havia algo de nobre nisso, algo que estivesse além da própria vida. De alguma forma eu acreditei na história de Érico Veríssimo: a vida é um touro e existem três tipos de escritores. Um monta num cavalo, chama o seu peão, e amarra o touro facilmente. Outro o provoca, dando mostras de grande coragem, mas quando o touro avança furiosamente, ele foge e sobe para a segurança de uma árvore.

E existe o terceiro, o Dostoiévski/Toríbio, que agarra o touro na unha.

Acreditava que alguma coisa de vivacidade podia ser lida. Sempre tive um imenso prazer nos livros, os devorava intensamente, sem nem pensá-los direito.

Eu acreditava sinceramente nisso, mas conforme fui me tornando um profissional dos livros, acabei percebendo que na maior parte do tempo os livros falam apenas de outros livros. Em Homero, talvez, ligado a algo mais próximo da vida que um livro - um canto - talvez explique algo de sua vivacidade arcaica.

Além de Dostoiévski, sempre ele. Ali sempre encontro aquele mar de sentimento que me invade um peito, quando percebo a pulsação da vida em cada parte do meu corpo.

No mas, toda erudição do mundo não vale mais que o simples riso, aquele arrebatamento no peito, até o mais ridículo e intenso orgasmo. Diante disso meu tão glorioso mundo dos livros nada mais é que um grande inventário das nossas frustrações, desde os gregos, subgregos e antigregos.

07/08/2008

desenhando no ar

Chega aquele momento em que fico triste, amargurado, profundamente ansioso... e já nem sei mais por qual razão. Queria ter a capacidade de odiar os outros, culpar o Bush, o Capital, o Lula, minha namorada ou meus professores, meu TCC, mas a genética e alguns traumas de infância me tornaram incapaz de odiar alguém ou alguma coisa.

E isso não é bom, pelo contrário, torna-me uma pessoa introspectiva, ingênua, frágil à escrotice alheia. Mas, na pior das hipóteses, eu consigo sentir pena ou desprezo pelas pessoas. Nada mais. A idéia de que eu possa atrapalhar ou incomodar outrem me é extremamente desconfortável. Só consigo ofender alguém no meu jeito maroto e irresponsável de ser, no mas alguém está bravo comigo porque não tem nada melhor pra fazer.

Isso é a segunda coisa que me tornou uma pessoa angustiada; a primeira é não saber jogar futebol. De onde eu vim você pode ser feio, burro, pobre... Se sabe jogar bola tá tudo bem. Não ter o hábito de odiar e não saber jogar bola arrasa com a vida social de qualquer pessoa.

Mas, não quero reclamar. Minha vida é boa, poderia ser muito pior. Aquele aperto no peito, aquela descrença com o futuro, aquele sentimento que nada vale tanto esforço e sofrimento... é puramente meu. Não culpo ninguém, e não preciso de motivos para ficar triste.

Também não preciso de motivos para ficar feliz. Com tudo que é sonhador e pueril em mim já devidamente estrangulado, meus momentos de prazer são cada vez mais bobos e simplórios. Acima de tudo, a música. Um cheiro no pescoço dela. Uma piada.

exercitando alteridade de mim mesmo. desenhando no ar.